Hormônio do crescimento e antidoping: o que a família precisa saber quando a criança ou o adolescente é atleta

Hormônio do crescimento e antidoping costumam aparecer juntos numa mesma pergunta: “meu filho faz tratamento com GH e acabou de entrar na equipe. Ele pode competir?”. A dúvida surge quando a criança passa da escolinha para a federação, quando chega a primeira convocação ou quando alguém do clube comenta que “GH é doping”.

Entendo que essa conversa gere insegurança, principalmente quando o tratamento foi indicado com cuidado e já faz parte da rotina da família. O sistema antidopagem prevê exatamente essa situação. Existe um caminho formal para que o atleta em tratamento médico legítimo continue competindo: a Autorização de Uso Terapêutico, conhecida como AUT.

A seguir, o que está por trás da proibição, como funciona a AUT no Brasil e por que o uso sem indicação médica é outra história. As informações seguem as regras da Agência Mundial Antidopagem (WADA) e da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) vigentes em outubro de 2026.

Por que o GH está na lista de substâncias proibidas

Todo ano a WADA publica a Lista de Substâncias e Métodos Proibidos, que vale para atletas de todos os países signatários do Código Mundial Antidopagem, incluindo o Brasil. O hormônio do crescimento está na classe S2, dos hormônios peptídicos e fatores de crescimento, e é proibido em qualquer momento: dentro e fora de competição. A proibição alcança também as versões de ação prolongada do GH e as substâncias que estimulam o organismo a liberar mais hormônio.

O motivo está nos efeitos do GH sobre o metabolismo e a composição corporal: em quem já produz o hormônio normalmente, o uso extra pode virar atalho de desempenho. A regra vale para qualquer atleta sujeito ao controle de dopagem, de qualquer idade.

Estar na lista não significa que o tratamento seja errado ou que precise ser interrompido. A lista define o que não pode ser usado sem autorização. Para quem tem uma condição de saúde bem documentada, a própria regra oferece a saída.

A lista é revisada anualmente. A versão de 2027 foi aprovada em setembro de 2026 e entra em vigor em 1º de janeiro, por isso vale conferir a edição atual sempre que um medicamento novo entrar na rotina.

Tratamento com GH e esporte podem caminhar juntos: o que é a AUT

A Autorização de Uso Terapêutico (AUT, ou TUE na sigla em inglês) é a permissão formal para que um atleta use um medicamento da lista proibida sem que isso configure violação das regras antidopagem. No Brasil, os pedidos de atletas de nível nacional são analisados por um painel de médicos especialistas da Comissão de AUT da ABCD.

Para ser concedida, a AUT precisa atender a quatro critérios ao mesmo tempo:

  • existe uma condição médica claramente diagnosticada que exige o medicamento;
  • o uso terapêutico não traz ganho de desempenho além do retorno ao estado normal de saúde do atleta;
  • não há alternativa terapêutica permitida que seja razoável;
  • a necessidade do medicamento não decorre de uso anterior, sem autorização, de alguma substância proibida.

Em linguagem do dia a dia, o tratamento precisa repor o que falta, e não acrescentar o que o corpo já tem. A comparação com os óculos de grau ajuda: eles corrigem a visão até o normal, sem dar a ninguém uma visão além do comum.

Quando a indicação foi bem estabelecida e está documentada, é exatamente para esse cenário que a AUT existe. As situações em que o GH costuma ser indicado aparecem no texto sobre o que é o tratamento com GH e quando ele é indicado.

Quem precisa pedir a AUT, e quando

A resposta depende do nível competitivo do atleta. Por isso, o primeiro passo recomendado pela própria ABCD é entrar em contato pelo e-mail aut@abcd.gov.br para confirmar a categoria do atleta e os requisitos do pedido.

Atleta de nível nacional

A ABCD considera de nível nacional, entre outros, quem recebe Bolsa Atleta, jogadores de futebol de clubes que disputam competições nacionais, quem compete no mais alto nível nacional da modalidade e quem pode ser selecionado para representar o Brasil. Nesses casos, a AUT deve ser solicitada com antecedência, antes de competir em uso do medicamento, salvo emergência ou circunstância excepcional.

Atleta abaixo do nível nacional

Muitas crianças e adolescentes competem em ligas escolares, categorias de base e torneios regionais. Para atletas abaixo do nível nacional, as regras da ABCD permitem pedir a AUT de forma retroativa caso o atleta seja testado. Retroativa não quer dizer dispensável: o pedido será avaliado com base no prontuário, e ter a documentação organizada desde já evita correria.

Competições internacionais

A AUT concedida pela ABCD vale apenas em âmbito nacional. Quando o adolescente passa a competir em nível internacional ou em grandes eventos, a federação internacional ou a organização do evento precisa reconhecer a autorização. Esse reconhecimento deve ser verificado antes da viagem.

O que costuma compor o pedido

O formulário de AUT é preenchido e assinado pelo médico que acompanha o tratamento e enviado junto com a documentação clínica. A ABCD pede um histórico médico abrangente, incluindo, quando possível, os registros de quem fez o diagnóstico original, além dos exames, receitas e relatórios que sustentam esse diagnóstico.

Para o uso de GH na infância e na adolescência, a WADA mantém orientações específicas para os comitês que avaliam os pedidos. Em linhas gerais, espera-se encontrar:

  • a história do crescimento, com as medidas registradas ao longo dos anos na curva de crescimento;
  • os dados de nascimento e a altura dos pais;
  • os exames hormonais e de imagem que embasaram o diagnóstico;
  • os relatórios de acompanhamento do tratamento.

A comissão precisa chegar à mesma conclusão do médico assistente sem ter examinado a criança. Por isso, documentação completa e legível faz toda a diferença: pedidos incompletos são devolvidos para correção.

Prazos e validade

A comissão da ABCD decide, em geral, em até 21 dias após receber o pedido completo. Cada AUT tem prazo de validade definido, e a renovação deve ser solicitada com pelo menos 30 dias de antecedência. Se houver mudança relevante no tratamento, como troca de medicamento ou da forma de aplicação, a ABCD deve ser comunicada, porque pode ser necessário um novo pedido.

As informações médicas enviadas são confidenciais e protegidas pelas normas internacionais de privacidade e pela Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais. Se o pedido for negado, a decisão vem por escrito, com os motivos. É possível reenviar com documentação complementar ou recorrer em até 15 dias.

GH para crescer mais ou render mais no esporte?

Em modalidades como vôlei e basquete, a estatura parece decisiva, e é compreensível que algumas famílias se perguntem se o GH poderia ajudar o filho a realizar um sonho esportivo. A pergunta nasce do desejo de abrir portas e merece uma resposta clara.

Sem uma condição médica diagnosticada, o uso de GH não atende aos critérios da AUT. No esporte, isso configura violação das regras antidopagem, mesmo que o produto tenha sido receitado. Além disso, o hormônio tem efeitos adversos potenciais conhecidos, que justificam acompanhamento cuidadoso, como mostra o texto sobre os efeitos colaterais do tratamento com GH.

Merecem atenção redobrada os suplementos e “peptídeos” vendidos como estimuladores naturais de GH. Muitas dessas substâncias estão na mesma classe proibida da lista, e produtos de origem incerta podem conter ingredientes diferentes do rótulo ou contaminantes.

A altura final depende de muitos fatores, e a criança mais baixa da equipe hoje não necessariamente será um adulto baixo. Entender o padrão de crescimento, como a diferença entre baixa estatura familiar e patológica, costuma trazer mais tranquilidade do que buscar atalhos.

Não é só o GH: outros tratamentos hormonais da infância

Outros medicamentos usados em endocrinologia pediátrica também aparecem na lista da WADA, como os análogos de GnRH, usados no tratamento da puberdade precoce, no caso de atletas do sexo masculino, e os inibidores de aromatase. Outros, como a reposição de hormônio tireoidiano, não são proibidos. Como as regras podem mudar de um ano para outro, a checagem precisa ser feita sempre.

Três hábitos simples ajudam a família:

  • avisar qualquer médico de que a criança é atleta sujeita ao controle de dopagem, antes de receber uma receita;
  • consultar o Check Jogo Limpo, ferramenta da ABCD e da Anvisa que mostra se um medicamento contém substância proibida;
  • guardar cópias de receitas, relatórios e de todo pedido de AUT enviado.

Pelas regras antidopagem, a responsabilidade final pelo que for encontrado na amostra é do atleta. No caso de menores, a família tem papel central nesse cuidado. No dia de um eventual controle, atletas menores de idade podem pedir adaptações no procedimento de coleta, como o acompanhamento de um responsável.

Quando procurar um especialista

Vale conversar com o endocrinopediatra que acompanha o tratamento quando:

  • a criança ou o adolescente em uso de GH começa a competir por clube ou federação;
  • surge uma convocação para seleção, competição nacional ou torneio no exterior;
  • o tratamento vai mudar e já existe uma AUT em vigor;
  • aparece a dúvida se algum medicamento da rotina é permitido.

Quem documentou o diagnóstico tem as melhores condições de reunir o histórico, a curva de crescimento e os exames que a comissão vai analisar. Não há exagero em levar essa conversa à consulta antes da temporada começar.

A Dra. Amanda Soeiro é endocrinopediatra, com títulos de especialista pela SBEM e pela SBP e formação em Pediatria e Endocrinologia Pediátrica pela Santa Casa de São Paulo. O acompanhamento do crescimento é um dos eixos do seu trabalho, descrito na página sobre distúrbios de crescimento infantil.

Perguntas frequentes

Meu filho usa GH com receita médica. Ele pode competir?

Pode, desde que siga as regras antidopagem. A receita sozinha não basta: para atletas sujeitos ao controle de dopagem, o que evita uma violação é a Autorização de Uso Terapêutico, pedida com antecedência no caso de atletas de nível nacional. O primeiro passo é confirmar com a ABCD, pelo e-mail aut@abcd.gov.br, qual é o nível do atleta e o que o pedido precisa conter.

A AUT é necessária também em competições escolares e categorias de base?

Depende do nível da competição. Pelas regras da ABCD, atletas abaixo do nível nacional podem pedir a autorização de forma retroativa caso sejam testados. Mesmo assim, manter a documentação médica organizada é recomendável, porque a análise retroativa também depende de um prontuário completo. Em caso de dúvida sobre a categoria do atleta, a própria ABCD orienta.

Quanto tempo leva a análise do pedido de AUT?

A comissão da ABCD decide, em geral, em até 21 dias a partir do recebimento do pedido completo, com toda a documentação médica. Pedidos incompletos ou ilegíveis são devolvidos, o que atrasa o processo. Para renovações, a orientação é enviar o novo pedido pelo menos 30 dias antes do fim da validade da autorização em vigor.

Suplementos que prometem aumentar o GH naturalmente são permitidos?

É preciso cautela. Muitas substâncias que estimulam a liberação de GH estão na mesma classe proibida da lista da WADA, e produtos de procedência incerta podem conter ingredientes que não aparecem no rótulo. Antes de usar qualquer suplemento, vale conversar com o médico que acompanha a criança e consultar as ferramentas oficiais de checagem.

A AUT emitida no Brasil vale em torneios no exterior?

A autorização concedida pela ABCD vale apenas em nível nacional. Para competições internacionais ou grandes eventos, a federação internacional ou a organização do evento precisa reconhecer a AUT. Cabe ao atleta e à família verificar esse reconhecimento com antecedência, e a ABCD pode ajudar na comunicação com essas entidades quando necessário.

Em resumo

  • O GH é proibido no esporte em qualquer momento, mas o tratamento com indicação médica bem documentada tem um caminho formal: a Autorização de Uso Terapêutico.
  • O nível competitivo define quando e para quem pedir a AUT, e a ABCD orienta pelo e-mail aut@abcd.gov.br.
  • O uso de GH sem condição diagnosticada não se encaixa nas regras e expõe a criança a efeitos adversos desnecessários.

Com informação e documentação em ordem, esporte e tratamento podem conviver com tranquilidade. Converse com seu pediatra ou um endocrinologista pediátrico de confiança.

Fontes

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