Ultraprocessados na infância: o que a ciência já sabe (e o que ainda não sabe)

“Cresci comendo isso e estou ótimo.” A frase aparece toda vez que o assunto é alimentos ultraprocessados na infância, e faz sentido. Muitos biscoitos, achocolatados e salgadinhos fazem parte da memória afetiva de quem hoje é pai ou mãe, e ninguém precisa sentir culpa por isso.

Ao mesmo tempo, duas coisas mudaram: esses produtos deixaram de ser exceção no dia a dia das crianças brasileiras, e hoje há estudos que acompanharam milhares de crianças por anos, ajudando a separar evidência de exagero.

A seguir, o que a ciência já mostra sobre peso, metabolismo e hormônios, o que ainda está em aberto e um jeito prático de ler o rótulo, sem terrorismo nutricional.

O que são alimentos ultraprocessados

A expressão vem da classificação NOVA, criada por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e adotada pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde. Ela separa os alimentos pelo grau e pelo propósito do processamento industrial, em quatro grupos:

  • In natura ou minimamente processados: frutas, verduras, legumes, arroz, feijão, ovos, carnes e leite.
  • Ingredientes culinários: óleo, sal, açúcar e manteiga, usados para preparar a comida.
  • Processados: alimentos simples com sal, açúcar ou óleo adicionados, como queijos, conservas e pães feitos só com farinha, água, sal e fermento.
  • Ultraprocessados: formulações industriais feitas principalmente de substâncias extraídas de alimentos ou sintetizadas em laboratório, com pouco ou nenhum alimento inteiro.

Um bolo caseiro leva farinha, ovos, leite, açúcar e fermento. A versão industrial que dura meses na prateleira costuma trazer também emulsificantes, espessantes, aromatizantes e conservantes, itens que não existem em uma cozinha doméstica. São esses ingredientes de uso industrial que caracterizam um ultraprocessado, mesmo quando o produto é enriquecido com vitaminas ou minerais.

Quanto as crianças brasileiras consomem

O Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019), encomendado pelo Ministério da Saúde e coordenado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, avaliou crianças menores de 5 anos em todo o país. No dia anterior à entrevista, 80,5% das crianças de 6 a 23 meses e 93% das crianças de 2 a 5 anos incompletos tinham consumido algum ultraprocessado.

Esses números descrevem um ambiente, não uma família específica. A conversa sobre ultraprocessados é sobre hábitos coletivos, e não sobre culpa individual.

O que a ciência mostra sobre peso e gordura corporal

Este é o ponto com a evidência mais consistente. Um estudo britânico publicado no JAMA Pediatrics acompanhou mais de 9 mil crianças dos 7 aos 24 anos. As crianças do grupo de maior consumo de ultraprocessados tiveram ganho mais rápido de índice de massa corporal (IMC), gordura corporal, peso e circunferência abdominal ao longo do crescimento, em comparação com as de menor consumo.

Uma coorte portuguesa, a Geração XXI, com cerca de 6 mil crianças, encontrou um padrão semelhante: o consumo alto ou intermediário e constante durante a infância se associou a trajetórias menos favoráveis de crescimento e adiposidade até a adolescência. Um estudo com pré-escolares chilenos observou a mesma relação com a adiposidade dois anos depois.

São estudos observacionais: mostram associação, mas não provam que um alimento isolado causou o ganho de peso. Rotina, sono e renda também pesam, e os pesquisadores tentam ajustar esses fatores. Ainda assim, a repetição do achado em países diferentes dá força à conclusão.

As explicações mais estudadas incluem a alta densidade de calorias, a textura que favorece comer rápido e o sabor intensificado. Em 2025, uma série de artigos da revista The Lancet, liderada pelo pesquisador brasileiro Carlos Monteiro, revisou o conjunto das evidências e apontou a substituição dos padrões alimentares tradicionais por ultraprocessados como um dos motores do aumento de doenças crônicas ligadas à alimentação.

E sobre metabolismo e hormônios?

Aqui a resposta exige mais cuidado. Há sinais de associação em algumas frentes, mas a evidência em crianças ainda está em construção.

Resistência à insulina e gordura no fígado

Em crianças e adolescentes que já tinham obesidade, um estudo coreano encontrou associação entre maior consumo de ultraprocessados, gordura no fígado e resistência à insulina, que tem sinais próprios na infância. Em pré-escolares espanhóis, o consumo maior se associou à adiposidade e a outros marcadores de risco cardiometabólico. Por outro lado, o estudo chileno que encontrou relação com a adiposidade não observou diferença nos exames metabólicos dois anos depois. Ou seja: o efeito sobre o peso aparece com clareza, mas o efeito direto sobre glicose, insulina e colesterol em crianças ainda varia entre estudos.

Aditivos alimentares

Os emulsificantes, que dão textura e estabilidade a produtos como sobremesas lácteas, biscoitos e chocolates, estão entre os aditivos mais estudados. Uma coorte francesa com mais de 100 mil adultos associou o consumo de alguns emulsificantes a maior risco de diabetes tipo 2. Os próprios autores ressaltam que um estudo observacional, sozinho, não estabelece causa e efeito. Em crianças, ainda não há dados equivalentes.

Embalagens e desreguladores endócrinos

Desreguladores endócrinos são substâncias capazes de interferir no funcionamento dos hormônios. Alguns ftalatos e bisfenóis, usados em plásticos e em materiais que entram em contato com alimentos, estão entre os mais pesquisados. Dados de uma pesquisa nacional dos Estados Unidos mostraram que pessoas com maior consumo de ultraprocessados tendem a ter níveis mais altos de alguns ftalatos na urina, ou seja, maior exposição.

Exposição, porém, não é sinônimo de doença. O impacto real desses níveis sobre a saúde hormonal das crianças segue em investigação, e o uso doméstico comum de plásticos não configura risco comprovado, como detalhado no texto sobre o que realmente pode antecipar a puberdade.

Sobre a puberdade, o fator ambiental mais bem documentado é o excesso de gordura corporal. A relação com os ultraprocessados, portanto, pode ser indireta, pelo caminho do peso; uma relação direta ainda não foi demonstrada.

Como ler o rótulo sem neura

  • Comece pela lista de ingredientes. Eles aparecem em ordem decrescente de quantidade: o primeiro é o que o produto mais tem. Listas longas, com nomes que não existem na cozinha de casa, são o sinal mais claro de um ultraprocessado.
  • Observe a lupa na frente da embalagem. Desde 2022, a Anvisa exige o símbolo de lupa com “ALTO EM” quando o produto tem excesso de açúcar adicionado, gordura saturada ou sódio. No caso do açúcar adicionado, o alerta aparece a partir de 15 g por 100 g em alimentos sólidos ou 7,5 g por 100 ml em líquidos.
  • Leia as alegações com olhar crítico. Frases como “fonte de vitaminas”, “rico em ferro” ou “fonte de cálcio” falam de um nutriente isolado, não do grau de processamento.
  • Lembre que a lupa não conta tudo. Ela não sinaliza adoçantes, corantes ou emulsificantes, que só aparecem na lista de ingredientes.

Na prática: frequência importa mais que proibição

Para crianças menores de 2 anos, o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, é claro: não oferecer açúcar, preparações com açúcar nem alimentos ultraprocessados. Nessa fase, o paladar está em formação e cada refeição conta.

A partir dos 2 anos, a orientação é que a base da alimentação seja comida de verdade e que os ultraprocessados fiquem como exceção, não como rotina. Uma festa ou um passeio não definem a saúde de ninguém; o que pesa é o padrão do dia a dia.

Algumas atitudes ajudam sem transformar a mesa em campo de batalha:

  • Cozinhar a mesma comida para a criança e para o restante da família.
  • Deixar frutas lavadas e à vista, e oferecer água no lugar de sucos de caixinha e refrigerantes.
  • Fazer trocas aos poucos, sem anunciar proibições nem rotular alimentos como “bons” ou “ruins”.
  • Falar de saúde e de energia, nunca de aparência ou de peso. O texto sobre como conversar sobre peso com o filho sem criar traumas aprofunda esse cuidado.

Entendo que mudar hábitos com rotina corrida, trabalho e cansaço não é simples. Pequenos ajustes consistentes costumam funcionar melhor do que grandes mudanças que não se sustentam.

Sinais que merecem atenção

O consumo de ultraprocessados, por si só, não é motivo para consulta com especialista. Alguns sinais no corpo da criança, porém, merecem uma conversa com o pediatra, especialmente quando aparecem juntos:

  • Ganho de peso que se afasta da curva de crescimento habitual da criança.
  • Manchas escuras e aveludadas no pescoço, nas axilas ou nas dobras, que podem estar ligadas à resistência à insulina.
  • Circunferência abdominal aumentada ou alterações em exames de rotina, como glicose, colesterol ou triglicerídeos.
  • Sinais de puberdade antes dos 8 anos em meninas ou antes dos 9 anos em meninos.
  • Cansaço persistente, roncos ou alterações de sono associados ao ganho de peso.

Nenhum desses sinais, isoladamente, fecha um diagnóstico. Eles indicam que vale olhar com mais atenção, com calma e sem pânico.

Como o endocrinopediatra avalia

A consulta começa por uma conversa, sem julgamentos, sobre a rotina da família: refeições, sono, atividade física, telas e histórico de saúde.

Em seguida vêm a análise da curva de crescimento, o cálculo do IMC para a idade e o sexo (que é diferente do IMC de adultos), o exame físico e a avaliação do estágio da puberdade. Quando há indicação, podem ser solicitados exames de sangue para investigar glicose, insulina, perfil lipídico e funções do fígado e da tireoide.

A partir dessa avaliação, a família recebe um plano de acompanhamento adaptado à sua realidade. A Dra. Amanda Soeiro é endocrinologista pediátrica, com residência em Pediatria e especialização em Endocrinologia Pediátrica pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, e tem títulos de especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Quando procurar um especialista

Se a alimentação da criança preocupa, o primeiro passo costuma ser conversar com o pediatra, que acompanha o crescimento desde cedo. Quando há ganho de peso fora da curva, alterações nos exames ou sinais de puberdade antes do esperado, a avaliação com um endocrinologista pediátrico ajuda a investigar as causas e a montar um acompanhamento individualizado.

Buscar avaliação não é exagero nem sinal de fracasso da família. É uma forma de cuidar com informação. Mais detalhes sobre como funciona esse acompanhamento estão na página sobre avaliação de obesidade e sobrepeso infantil.

Perguntas frequentes

Todo alimento industrializado é ultraprocessado?

Não. Arroz embalado, feijão, leite, iogurte natural, queijo e pão feito só com farinha, água, sal e fermento passam por processos industriais e não são ultraprocessados. O que define um ultraprocessado é a formulação com ingredientes de uso exclusivamente industrial, como aromatizantes, emulsificantes, espessantes e realçadores de sabor.

Meu filho come ultraprocessados de vez em quando. Isso faz mal?

O consumo ocasional, dentro de uma alimentação baseada em comida de verdade, não é motivo de alarme. Os estudos que associam ultraprocessados a ganho de peso avaliaram o padrão de consumo ao longo de anos, principalmente quando esses produtos ocupam grande parte do dia a dia.

Ultraprocessados causam puberdade precoce?

Não há evidência de que ultraprocessados causem puberdade precoce diretamente. O fator ambiental mais bem documentado é o excesso de gordura corporal, especialmente em meninas. Como o consumo frequente de ultraprocessados se associa a maior ganho de peso, a relação pode ser indireta. Sinais de puberdade antes dos 8 anos em meninas ou dos 9 anos em meninos merecem avaliação.

Produto com “fonte de vitaminas e minerais” é uma boa escolha?

A presença de vitaminas ou minerais adicionados não muda o grau de processamento. Um produto enriquecido pode ser ultraprocessado e ter excesso de açúcar ao mesmo tempo. Vale ler a lista de ingredientes e observar se há a lupa “ALTO EM” na frente da embalagem.

Com que idade a criança pode comer ultraprocessados?

O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, recomenda não oferecer ultraprocessados nem açúcar até os 2 anos. Depois disso, a orientação é que eles sejam exceção, e não parte da rotina.

Em resumo

  • A evidência mais consistente liga o consumo frequente de ultraprocessados na infância a maior ganho de peso e de gordura corporal ao longo do crescimento.
  • Os efeitos sobre metabolismo, aditivos e desreguladores endócrinos são áreas ativas de pesquisa, com resultados ainda em aberto.
  • A frequência importa mais que a proibição: comida de verdade como base, ultraprocessado como exceção e leitura de rótulos como hábito.

Para uma avaliação individualizada, agende uma consulta com a Dra. Amanda Soeiro, endocrinopediatra. Atendimento presencial em São Paulo e por telemedicina para o Brasil e o exterior.

Referências

  • Ministério da Saúde. Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos. Brasília, 2019.
  • Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019).
  • Monteiro CA et al. Ultra-processed foods and human health: the main thesis and the evidence. The Lancet, 2025.
  • Chang K et al. Association between childhood consumption of ultraprocessed food and adiposity trajectories in the ALSPAC birth cohort. JAMA Pediatrics, 2021.
  • Magalhães V et al. Patterns of ultra-processed foods consumption throughout childhood and trajectories of growth and adiposity. Clinical Nutrition, 2024.
  • Zancheta C et al. Ultra-processed foods and adiposity in Chilean preschool children. BMC Medicine, 2024.
  • Khoury N et al. Ultraprocessed food consumption and cardiometabolic risk factors in children. JAMA Network Open, 2024.
  • Salame C et al. Food additive emulsifiers and the risk of type 2 diabetes: NutriNet-Santé cohort. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2024.
  • Buckley JP et al. Ultra-processed food consumption and exposure to phthalates and bisphenols in NHANES 2013–2014. Environment International, 2019.
  • Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). RDC nº 429/2020 e IN nº 75/2020 — rotulagem nutricional de alimentos embalados.

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